"É destino de toda verdade ser objeto de ridículo quando exposta pela primeira vez." - Albert Schweitzer
Mostrando postagens com marcador vegetariano. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador vegetariano. Mostrar todas as postagens

terça-feira, novembro 15, 2011

Me perdoem...

...aqueles que enviaram comentários nestes últimos meses, e principalmente as pessoas que ficaram esperando meu retorno para contato. Este ano de 2011 foi um ano muito difícil para mim, enfrentei um verdadeiro furacão na minha vida pessoal, e somente agora, no final do ano, estou conseguindo pôr novamente os pés no chão. Graças a Olodumare e a minha mãe Oya, que nunca me abandona e está sempre à minha frente em todas as batalhas, agora o furacão virou apenas uma ventania, e que filha de Oya não gosta de sentir o vento nos cabelos, e não o enfrenta de peito aberto?? Como tantas outras vezes, eu levanto, sacudo a poeira e dou a volta por cima. Faço dos limões uma boa limonada e de cada pedra no caminho mais um degrau na minha subida. Os revezes da vida servem sempre de base para os novos desafios, e a força dos meus orixás não deixa que eu desista nunca. Além disso, eu sou brasileira, né?? rsrs... Então, mais uma vez, já perdi a conta de quantas, recomeço este blog. E vou recomeçar respondendo a todos os comentários que recebi. Afinal, apesar de afastada do blog, não me afastei do candomblé. Verde, é claro. Axé a todos!!

quarta-feira, janeiro 05, 2011

O que é candomblé vegetariano? - por Ademir Barbosa Junior

"Saúdo meus Orixás, saúdo minha ancestralidade!

Deixa a gira girar, deixa tocar o xirê!

Candomblé Vegetariano é Candomblé. Não é dissidência, mas sim uma maneira de conectar-se com as energias dos Orixás. Não há casas em que se corta menos, situações em que não se corta? Pois bem, paulatinamente Iya Senzaruban adaptou os fundamentos à prática vegetariana, não criou uma nova religião.

Candomblé Vegetariano é Candomblé. E toda festa de santo é celebração. Todo iniciado é "do santo". Não há casas em que fundamentos diferem? Não há nações com práticas diferenciadas? Ninguém aprisiona as energias, ninguém aprisiona os Orixás (1).

Na vivência espiritual nem sempre se respeita a diversidade, o diálogo. Mestre Jesus, grande avatar deste planeta, quando informado pelos discípulos de que havia curadores usando seu nome sem pertencerem a seu grupo, respondeu que aquele que não estava contra Ele, estava com Ele (Lc 9, 49-50). No caso do Reiki, por exemplo, há diversas tradições e práticas divergentes, mas é a mesma Energia. Há reikianos que sugerem, baseados na observação e em sua experiência, não aplicar Reiki em situações de anestesia, outros que comprovaram não ser isso necessário e aqueles, como eu, que consideram cada situação, cada organismo (humano ou animal). Existem mestres que fazem iniciações a distância, com crianças, animais e plantas, baseados em fundamentos do próprio Reiki e no trabalho de diversos mestres internacionalmente respeitados. Outros não trabalham a Energia dessa maneira. Particularmente, procuro entender a fundamentação, observar se não há excessos, inconvenientes, respeitar a prática alheia e fazer o que meu coração, as necessidades e urgências solicitam, com responsabilidade, e sem culpa. O que não pode acontecer, ainda tendo o Reiki como exemplo, é achar que o "meu" Reiki é melhor do que o Reiki "do outro".

Na Umbanda, em cuja fundamentação não existe o corte, embora diversas casas dele se utilizem, os elementos animais, quando utilizados, crus ou preparados na cozinha, provêm diretamente dos açougues. No primeiro caso, usam-se, por exemplo, língua de vaca, sebo de carneiro (por vezes confundido com e/ou substituído por manteiga de carité), miúdos etc. No Segundo, nas palavras de Rubens Saraceni,
"(...) Mas só se dá o que se come em casa e no dia a dia.
Portanto, não há nada de errado porque a razão de ter de colocar um prato com alguma comida "caseira" se justifica na cura de doenças intratáveis pela medicina tradicional, causadas por eguns e por algumas forças negativas da natureza.
(...)
Observem que mesmo os Exus da Umbanda só pedem em suas oferendas partes de aves e de animais adquiridos do comércio regular, porque já foram resfriados e tiveram decantadas suas energias vitais (vivas), só lhes restando proteínas, lipídios etc., que são matéria." (SARACENI, p. 64).
Para legitimar a não utilização do corte na Umbanda, Míriam de Oxalá se vale dos estudos e de citação de Fernandez Portugal. Para a autora,
"(...) vale a pena citar de Fernandez Portugal, renomado escritor africanista, em seu livro Rezas-Folhas-Chás e Rituais dos Orixás publicado pela Ediouro, o item "Ossaiyn, O Senhor das Folhas": "Segundo a tradição yourubá, sem ejé e sem folhas não há culto ao Orixá, mas pode-se iniciar um Orixá apenas utilizando-se folhas, pois existem folhas que substituem o Ejé." O grifo é nosso e tais conceitos são, para nós umbandistas, bem conhecidos." (OXALÁ, p. 77)
Observe-se, noutro contexto, como ecoam tanto as palavras de Portugal quanto as de Míriam de Oxalá. Para Orlando J. Santos,
"Para se fazer um EBÓ 'tudo que a boca come' é preciso ter esgotado todas as possibilidades de resolver o caso a partir das ervas: akasá, obi, orobô etc. Sabemos que: obi, orobô e certas folhas, quando oferecidos aos Orixás dentro do ritual, valem por um frango, cabrito, carneiro, Portanto, em muitos casos, substitui o EJÉ, 'sangue animal'." (SANTOS, pp. 46-47)

No Candomblé, por sua vez e ao contrário do que sustenta o senso comum, o qual associa a religião à "baixa magia", prefere-se a criação própria, mais integrada e ecológica. A respeito do aproveitamento do elemento animal em rituais e no cotidiano do Ilê, Iya Omindarewa afirma
"Uma parte é oferecida ao Orixá, fica aos seus pés até o dia seguinte e depois é dividido entre as pessoas da comunidade. Essa carne é cozida e preparada num ritual muito absoluto, e é totalmente aproveitada. O restante é para alimentar o povo da festa, gente da casa e os vizinhos. Tem um sentido, nada é feito à toa. É oferecida ao animal uma folha; se ele não comer não será sacrificado, pois não foi aceito pelo Orixá." (Revista Espiritual de Umbanda – Especial 03, p. 60).

Mãe Stella de Oxossi, quando perguntada se o século XXI corresponderia ao fim do uso de animais em rituais do Candomblé, responde:
"Mas neste século XXI o que mais tem é churrascaria! Mata-se o boi, a galinha e o carneiro para comermos. Só porque usamos animais em nossos rituais, fiam falando que deve acabar. O animal mais bem aproveitado é aquele que é morto nos rituais de Candomblé, porque se aproveita tudo: a carne, que alimenta muita gente, o couro..." (Revista Espiritual de Umbanda – Especial 03, p. 60).

Em síntese, nos rituais, o corte no Candomblé está associado à ceia comunal: come o Orixá e comem fiéis e convidados do mesmo prato. A base desse fundamento é a utilização do sangue (ejé, menga, axorô) para a movimentação do Axé, o que, aliás, não ocorre apenas em situações de ceia comunal, mas também em ebós, quando apenas os Orixás ou entidades comem.
Nas palavras de Iya Omindarewa,
"Está na cabeça da gente que não se pode fazer o sacrifício, pegar energia de uma coisa viva e passar para outra. Admite-se comer um bom bife, uma galinha ou porco para alimentar o corpo. Mas não se admite captar a energia dos animais, das folhas, da Natureza toda para fortalecer sua cabeça. Isso não faz sentido; vamos andar descalços porque não se pode usar o couro? Não vamos comer folhas, milho, carne porque são da Natureza? E como o ser humano vai viver? A vida não é uma luta? Pega-se uma coisa pela outra e depois não retorna tudo para a terra? Isso tudo é uma grande bobagem. O sacrifício significa dar ao Orixá uma certa energia que ele devolve em troca. Tudo depende das ocasiões; não é durante toda a vida que vamos matar bichos, mas em grandes momentos, como nas Feituras, quando é necessário." (Revista Espiritual de Umbanda – Especial 03, p. 60).

Dialética e dialogicamente, quanto mais vivencio o Candomblé Vegetariano, mais aprendo a respeitar o fundamento do corte. É natural que o Candomblé Vegetariano atraia vegetarianos, pessoas e entidades que trabalham com resgate e direitos de animais, contudo isso não nos confere o direito de discriminar irmãos-de-santo, terreiros etc. Prática plural e geralmente inclusiva, o Candomblé, em sua vertente vegetariana, não atrai apenas os que não comem carne ou que não trabalhem o corte como fundamento: as portas estão sempre abertas para todos. Conforme registrei em diversos escritos (e faço disso um lembrete para mim, como integrante do Ilê e como Ogã), e isso não se aplica apenas ao Candomblé,
"Candomblé Vegetariano: uma prática que respeita os fundamentos de outras tradições e amorosamente também exige respeito."

Historicamente, o povo-de-santo já foi por demais achincalhado, desrespeitado e perseguido. A respeito do corte, observe-se o exemplo abaixo, fragmento de texto utilizado por mim diversas vezes para tratar de contra-argumentação, preconceito, pluralidade e outros conceitos em aulas de Redação.
"Como racismo no Brasil é sempre coisa do vizinho (argentino ou não), os defensores dos animais que lutam contra o rito das religiões africanas vão jurar de pés juntos que não são racistas, que jamais quiseram dizer que o deus dos negros não é tão bom quanto o deus dos brancos, que existem até negros entre eles e que queriam apenas evitar atrocidades contra os animais. Pode ser verdade, mas não basta. Se isso for mesmo, se o que os move é tão-somente a defesa dos animais, onde estão então os protestos diante dos abatedouros de bois, porcos e aves? Onde estão os protestos contra a condição do Brasil de maior exportador mundial de carne bovina e de frango? Dias atrás, o governo da Rússia anunciou que vai voltar a permitir a importação de carnes bovina, suína e de frango de regiões do Brasil onde havia suspeita de alguma doença. Foi uma excelente notícia para a economia brasileira – e não se ouviu o protesto dos defensores dos bois, porcos e galinhas." (André Petry, "Isso é que é racismo". Veja, 27 de abril de 2005, p. 93)

Não seremos nós, irmãos, a cometer violência e desrespeito, dentro ou fora da comunidade do Candomblé. Além de razões éticas e humanitárias, existe legislação específica que privilegia o respeito e a convivência conscientes, muito mais do que a tolerância (2). Tive a oportunidade de vivenciar em 21 de janeiro de 2008, no Teatro Castro Alves, em Salvador, uma noite festiva para o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. A data foi oficializada pela Lei número 11.635, em 27 de dezembro de 2007, e sancionada pelo Presidente da República. Em outras palavras, Religião e Espiritualidade também são questões de cidadania e leis.
Embora não seja objetivo deste texto tratar dos fundamentos das religiões ditas de matriz africana e/ou especificamente do Candomblé ou do Candomblé Vegetariano, convém lembrar que sacrifícios e oferendas sempre fizeram parte da relação entre o humano e o divino, seja literal (Judaísmo Antigo, Candomblé etc.) ou simbólico (Missa e outras formas de culto). Nesse contexto, a presença do sangue é fundamental. Além dos sacrifícios propriamente ditos, há mundo afora diversos rituais em que se derrama o próprio sangue, como a autoflagelação, a Dança do Sol entre povos indígenas dos Estados Unidos (3) e o hábito de utilizar gotas do próprio sangue para impregnar objetos rituais como runas fabricadas artesanalmente para uso próprio. Se os dois primeiros exemplos podem ser considerados por muitos literalmente sangrentos, ambos devem ser analisados no contexto social, psicológico e religioso em que se manifestam, a fim de a autoflagelação não ser reduzida a uma prática masoquista e de culpabilização (seja nas Filipinas ou no cotidiano da Opus Dei), ao mesmo tempo que, quando muito, se aceita a Dança do Sol como forma de interação com o cosmo e de preservação da cultura nativa (4). Pretendo aqui ampliar o diálogo e jamais pontificar o "certo" ou o "errado" na vivência espiritual de cada um ou de determinada coletividade.

O Candomblé se utiliza de três tipos de sangue (5):

Reino animal
Sangue vermelho
sangue propriamente dito
Sangue branco
sêmen, saliva, hálito plasma (em especial do ibi, tipo de caracol) etc.
Sangue preto
cinzas de animais

Reino vegetal
Sangue vermelho
epô (óleo de dendê), determinados vegetais, legumes e grãos, osun (pó vermelho), mel (sangue das flores) etc.
Sangue branco
seiva, sumo, yierosun (pó claro), determinados vegetais, legumes e grãos etc.
Sangue preto
sumo escuro de determinadas plantas, waji (pó azul), carvão vegetal, determinados vegetais, legumes, grãos, frutos e raízes etc.

Reino mineral
Sangue vermelho
cobre, bronze, otás (pedras) etc.
Sangue branco
sais, giz, prata, chumbo, otás etc.
Sangue preto
carvão, ferro, otás, areia, barro, terra etc.

As adaptações, os fundamentos do Candomblé Vegetariano são apresentados em livros da própria Iya Senzaruban. Não cabe a mim encabeçar esse diálogo, mas sim à própria ialorixá. Este texto, repito, apresenta parte da celebração da trajetória deste Ogã, sua visão particular sobre o Candomblé Vegetariano, os Orixás etc. Entretanto, não posso deixar de registrar a feliz analogia de Iya Senzaruban, aqui adaptada e simplificada, sobre o uso ou não do sangue de animais em rituais. Conforme suas palavras, a utilização do sangue em rituais seria como um SEDEX 10; sem o sangue teríamos uma carta registrada: a correspondência demoraria alguns dias, mas chegaria com a mesma segurança.

A diversidade de culto e liturgia no Candomblé não se restringe apenas às particularidades e aos fundamentos de cada nação ou de cada casa, uma vez que o culto aos Orixás também representa uma experiência pessoal, não restrita ao terreiro. O Candomblé Vegetariano vem somar-se a essa diversidade. Na Umbanda, onde talvez a diversidade seja ainda maior (e sempre amparada em fundamentos), encontramos, por exemplo, terreiros em que, por diversas razões, não se fecham as cortinas do congá quando das giras de Exus e Pomba-giras, nem são servidas bebidas alcoólicas às entidades incorporadas nos médiuns, as quais são postas em recipientes, onde ficam à disposição das entidades (6). A esse respeito, e por também evocar o diálogo sobre a utilização do corte/sangue em rituais, reproduzo algumas informações bastante interessantes sobre a água de coco.

No 1o. Locutório Interestadual promovido pela Faculdade de Teologia Umbandista (Curitiba, 16 de julho de 2005), Pai Fernando cita e-mail de Maria de Omolu e Solano de Oxalá (Casa Branca de Oxalá, Lagoa Santa, MG) a respeito da substituição de bebidas alcoólicas por água de coco no caso de médiuns que não consomem álcool. Segundo trecho do e-mail:
"(...)
O que eles fazem: deixam no ponto central um cuité com o marafo e bebem água de coco em outro cuité. O coco tem uma propriedade enorme na sua essência: primeiro porque é considerado o "sangue vegetal" e segundo porque tem o plasma da vida. Na guerra do Vietnã, quando faltou sangue para os soldados fazerem transfusão, foi a água de coco que salvou muita gente. Então, os Exus ou Pombas-giras que trabalham com médiuns que não podem beber, trabalham com a água de coco. E ficam satisfeitos, porque a função de uma Entidade é querer que seu aparelho evolua, ou então, querer o seu bem-estar físico." (Revista Espiritual de Umbanda – número 11, p. 9).
A abstinência dos médiuns é bastante comum em muitos terreiros, acrescida ou não do uso da água de coco em substituição ao álcool. Ainda a respeito de outros aspectos terapêuticos do mesmo elemento (água de coco), em especial, no combate a demandas, Pai Fernando evoca o pai-de-santo Edmundo Santo, já desencarnado, o qual, segundo o autor,
"(...) dizia-me que a Umbanda combate todos os trabalhos negativos, exceto quando neles foi usado o sangue como energia, pois, segundo ele, para desmanchar um campo de forças, um semelhante tem que ser criado."

Assim como as experiências relatadas por Pai Fernando oferecem alternativas ao uso do corte e do sangue animal, e outros tantos terreiros de Umbanda buscam alternativas para, dentre outros, o ritual de passar animais pelo corpo dos consulentes para soltá-los, a fim de descarregarem energias negativas na terra, o Candomblé Vegetariano apresenta-se como uma vertente das religiões ditas de matriz africana. Se, de modo geral, o Candomblé não faz proselitismo, uma vez que se fundamenta na ancestralidade, e abre as portas para todos (7), o Candomblé Vegetariano não foge à regra: "uma prática que respeita os fundamentos de outras tradições e amorosamente também exige respeito."

NOTAS
(1) Na tradição do Reiki, há um símbolo-ideograma com uma belíssima narrativa que destaco como reflexão para toda atividade espiritual, religiosa, holística: "O céu/O céu desce à terra/O homem é criado/O céu também está dento do homem/O homem estabelece o céu na terra/O homem manifesta a força do céu na terra/O homem cria a casa de Deus/O homem passa a estabelecer que o céu está apenas no interior da casa de Deus/O homem passa a acreditar que o céu existe em razão da casa de Deus/O homem afirma que o céu se manifesta apenas na casa de Deus/ O homem prega que somente os 'homens de Deus' vão para o céu/O céu desce fora da casa de Deus/O homem comum descobre que o céu está somente dentro dele/O homem comum traz o céu à terra por meio de seus atos de amor/Os atos de amor do homem comum salvam a humanidade da destruição e oferecem esperança a todos os que ainda nascerão." (BARBOSA JÚNIOR, p. 62)
(2) Por vezes, a tolerância mascara o preconceito: "Ele é do Candomblé, eu aceito, eu respeito, fazer o quê, né?". "Ela é evangélica, mas é gente boa...". "Tão bonzinho, mas é espírita...".
(3) "Os membros do Clã dos Guerreiros que escolhem o caminho do sacrifício pelo bem do Povo devem preparar-se durante três dias antes da dança, através de jejuns e de preces, seguindo as instruções dados pelos Anciões. No terceiro dia os dançarinos são trespassados através do tecido conjuntivo dos músculos peitorais, primeiro com um furador e depois com um bastão afiado de cerejeira. Depois prendem-se tiras de couro às pequenas estacas que lhes atravessam o peito, atando-os à Árvore da Dança do Sol ou à Árvore da Vida e criando um efeito especial de guarda-chuva ou de carrossel." (SAMS, p. 93)
(4) "Muitos dos primeiros agentes do governo dos Estados Unidos viam a Dança do Sol como uma tortura auto-infligida porque não conheciam o propósito da cerimônia. Consequentemente ela foi proibida em 1941 pelo Departamento do Interior. Só nos últimos anos as Danças do Sol começaram novamente a devolver o espírito ao nosso povo. O objetivo da Dança do Sol é permitir que jovens Guerreiros partilhem o sangue de seus corpos com a Mãe Terra. Acredita-se que as mulheres fazem isso durante sua Lua, ou ciclo menstrual (...). As mulheres doam sua dor durante o parto, e os homens durante a Dança do Sol, para que o seu povo possa continuar a existir. As mulheres nutrem as sementes das futuras gerações enquanto os homens comprometem suas vidas com a proteção desse futuro através da cerimônia da Dança do Sol." (SAMS, p. 93)
(5) Valho-me aqui da síntese feita por Virgínia Rodrigues em "A força do Axé" ( Revista Espiritual de Umbanda – Especial 03, p. 69).
(6) No Ilê Iya Tunde bebidas alcoólicas geralmente não são ingeridas pelos médiuns incorporados, sendo oferecidas aos pés das entidades e dos Orixás, de acordo com a organização geral da casa e dos rituais.
(7) A respeito da inclusão dos segmentos sociais mais diversos e diversificados no Candomblé, consultem-se os ensaios das coletâneas organizadas por Carlos Eugênio M. de Moura citados na bibliografia."


Fonte: http://www.mundoaruanda.com

....

Não concordo com tudo que foi escrito por Ademir Barbosa Junior. Como escrevi para o próprio autor, sou muito menos contida, e talvez por ter muito menos tempo de santo, menos sabedoria e conhecimento da religião que ele, eu não consiga ainda ser tão ponderada nem acreditar no fundamento da matança. Essa sempre foi a minha grande dificuldade na religião. Quando ofertamos ao orixá uma folha, uma flor, um grão que seja, o pé de onde se originou esse elemento não precisa morrer. Não temos que cortar uma planta para utilizarmos suas folhas. É esse o ponto crucial na utilização do sangue animal: o animal tem de morrer, para supostamente dar vida e força ao orixá. Quando Iya Omindarewa chama de "grande bobagem" a preocupação com a matança, ela diz que então não vamos mais comer vegetais, por exemplo, porque também são da natureza. Bem, o vegetal não precisa morrer para que nos utilizemos de suas folhas e frutos. E quanto à dizer que "É oferecida ao animal uma folha; se ele não comer não será sacrificado, pois não foi aceito pelo Orixá.", bem... Conheço o fundamento, conheço inclusive a cantiga, aprendi nas casas de santo que frequentei, mas nunca, NUNCA vi a folha ser oferecida ao animal tranquilamente, esperando-se que ele a comesse. Ela é simplesmente enfiada em sua boca, que é rapidamente amarrada. Afinal, um cabrito, cabra ou seja lá que animal for ofertado custou caro, e vai ter de morrer, ninguém quer saber se ele aceitou ou não a folha, se o orixá o aceitou ou não. Talvez antigamente fosse assim, ou nas casas mais antigas... Hoje em dia?? Duvido!!
Mas concordo plenamente com ele quando diz que o importante é o respeito às diversidades. Respeito quem cultua seu orixá à moda tradicional, e exijo o mesmo respeito para com a minha crença e minha forma de liturgia. Na verdade, o que está acabando com o candomblé é isso: a falta de respeito dos seus próprios seguidores. E, na minha humilde opinião, a falta de amor, humildade, caridade...

Candomblé Vegetariano - entrevista na ANDA com Iya Senzaruban

O universo do candomblé está presente na vida de Iya Senzaruban desde muito cedo. Nascida numa família de cultura tradicional do candomblé, ela é filha de um ekede e de um ogã. Foi iniciada nesta senda espiritual aos 7 anos e aos 14 anos tornou-se mãe-de-santo. Desde o início dos anos 90 estuda técnicas da medicina alternativa como a aromaterapia, acupuntura, fitoterapia, auriculoterapia, cromoterapia e cristais. No Sri Lanka entrou no culto a Krishna e Shiva e acabou descobrindo uma forma para substituir, em sua alimentação e nos rituais, os animais e ingredientes de origem animal. Vegetariana há 25 anos, atuante na área de saúde, ela é também responsável pelo Grupo Ile Iya Tundé, entidade filantrópica que atua há 22 anos em Itanhaém, no estado de São Paulo e que ministra cursos e atividades para a comunidade. Sua experiência na renovação do candomblé está sendo relatada no livro que escreve e pretende publicar sob o título de Candomblé Vegetariano. Nesta entrevista à jornalista Cynthia Schneider, da ANDA, Yia Senzaruban fala sobre sua experiência lactovegetariana, sua dedicação ao candomblé, sua caminhada espiritual e a sintonia entre natureza e espiritualidade.


ANDA – Como foi sua experiência de ter se tornado mãe-de-santo tão jovem e depois ter optado pelo vegetarianismo?

Iya Senzaruban – Eu já nasci dentro do santo. Fui iniciada aos 7 anos e aos 14 já era mãe-de-santo. Depois disso andei em vários lugares, mas no Sri Lanka foi uma experiência relevante por causa do vegetarianismo e também porque eu me iniciei como devota de Krishna. E isto tudo criou uma incompatibilidade, pois os devotos de Krishna e Shiva não comem carne de jeito nenhum. Eles comem alguns produtos lácteos e derivados como o queijo, porque a vaca é considerada sagrada. Mas não comem ovo, nenhum outro produto animal sem ser derivado do leite. Desde pequena eu não gostava de comer carne, então optar pelo vegetarianismo foi fácil. Difícil foi conciliar as coisas. Eu levei muitos anos para poder encaixar as duas coisas, que eu considerava muito bonitas. Além disso eu já tinha muita gente que contava comigo pela minha situação religiosa. Não poderia abandonar tudo no meio do caminho.

ANDA – Como foi esta transição para um candomblé vegetariano?

Iya Senzaruban – Eu estou escrevendo um livro a respeito do candomblé vegetariano e também dou cursos e palestras sobre isto. Assim como eu, tem muita gente que é do santo, que é do candomblé e que não gosta da matança e se sente meio acuada. Tem gente que adora, gosta, ama os orixás, admira o ritual que é muito bonito, muito completo, mas na hora de participar de uma matança, “o bicho pega”. A proposta do vegetarianismo no candomblé é fazer de uma outra forma, sem prejudicar o tipo de energia que a gente trabalha, sem mudar muito. As mudanças são muito poucas. Não são eliminados os elementos da natureza, que é o que o candomblé trabalha, as forças da natureza. No livro que estou escrevendo apresento as mudanças que vão desde a comida de santo, que não usa nem camarão ou ovo, nada de origem animal. Mas demorou muito tempo para chegar nisso. Passei a vida inteira dentro de um certo contexto. Hoje já é mais fácil. Mas ainda tem adaptações a fazer, tem hora que eu tenho que buscar outras soluções. Também não dá para buscar a mesma energia, porque a energia de sangue é muito pesada. Ela traz muita proteção mas ao mesmo tempo traz muita sujeira espiritual. Hoje em dia eu procuro ter uma limpeza espiritual e conseguir a mesma coisa sem ter que fazer uma matança: livrar as pessoas de problemas, principalmente na área de saúde, de doenças graves. Como eu também sou terapeuta, vejo muito por este lado, de saúde física, moral, espiritual e psicológica. Meu trabalho como mãe-de-santo é bem voltado para a saúde.

ANDA – Você também trabalha com outras técnicas de terapias como a cromoterapia e acupuntura. Como isto ajuda no seu trabalho?

Iya Senzaruban – Hoje em dia os pais-de-santo estão muito mais cultos. É uma nova época dentro do candomblé. As pessoas estão buscando mais conhecimento, trabalham em outras coisas, não dependem mais financeiramente do candomblé como eram os antigos pais-de-santo, que só viviam para isso. Então ficava muito restrito. Toda religião precisa evoluir, senão fica estagnada e morre.

ANDA – Dentro do contexto religioso é mais difícil a aceitação da mudança?

Iya Senzaruban – A respeito da matança, eu acho que os meus filhos-de-santo que já têm casa vão aproveitar muito mais esta situação renovada e talvez daqui a 10 anos a gente tenha alguma resposta. Isso porque há uma restrição muito séria a respeito disso. Mas aos poucos eu acredito que a gente vai atingindo as pessoas. Afinal, alguém tem que começar, né?

ANDA – Dá para perceber o quanto você está sendo pioneira.

Iya Senzaruban – Isso é porque eu sou filha de Iansã, e Iansã arrebenta tudo. Ela é a minha guerreira, ela derruba mesmo os tabus, os preconceitos. Mas fora a situação de matança, os pais-de-santo têm menos tradicionalismo hoje. Eles são abertos a outras coisas, à busca das raízes, das ervas, de estudos sobre determinados orixás que a maioria não conhecia ainda, mas com uma mente diferente, porque já têm mais cultura. A maioria hoje tem terceiro grau completo e isso faz alguma diferença.

ANDA – Como você relaciona o vegetarianismo e a espiritualidade sob este enfoque profissional na área de saúde?

Iya Senzaruban – Matar os animais é algo que espiritualmente não faz bem, pois você está tirando a vida e depois comendo cadáveres. Não é nada sadio espiritualmente falando. Além disso, principalmente o frango e os animais que se compram em supermercados estão cheios de hormônios. Um frango hoje em dia, de um pintinho para um frango demora três dias. Isso é um absurdo. Imagine o que isto não causa dentro do organismo da pessoa. E ainda afeta a psique, porque são drogas injetadas por tabela. Não adianta você não fumar, não beber, não tomar psicotrópicos e acabar consumindo por tabela quando consome a carne. O efeito é o mesmo. Isso faz também com que cada vez mais as pessoas tenham câncer e outras doenças. O vegetarianismo, ao contrário, é muito bom. É certo que muitas verduras são contaminadas, mas mesmo assim já não faz tanto mal, pois não atinge a aura da pessoa. E com isso ainda tem tantas opções, como os grãos. Eu mesma como muito poucas verduras. O que como mais são legumes, tubérculos, grãos e doces. Inclusive, quando eu dou aulas sobre a comida vegetariana, apresento excelentes opções simples e tão mais baratas! Com um quilo de carne dá para fazer um almoço para quatro pessoas. Com o mesmo dinheiro de um quilo de carne, na cozinha vegetariana, dá para fazer o almoço, o jantar e outro almoço no dia seguinte para quatro pessoas. O vegetarianismo é um estilo de vida para o bolso, para a saúde mental, espiritual e psicológica, pois tudo está ligado. Se você come um alimento saudável, vai ser uma pessoa saudável mentalmente também. Te dá ânimo para fazer exercícios, você se torna uma pessoa mais doce. Geralmente quem é vegetariano não bebe, não fuma, é uma consequência sine qua non. Vai limpando o seu corpo. E ainda tem mais: a pele fica bonita, o cabelo também, não tem barriga, não tem celulite…

ANDA – Há quanto tempo você adotou o vegetarianismo no seu trabalho? E como as pessoas percebem o seu engajamento por esta opção?

Iya Senzaruban – Eu já sou vegetariana há 25 anos e levo o candomblé vegetariano há quase 17 anos. As pessoas, principalmente as mais jovens, se interessam mais. Eu vejo também que quem mais se interessa pelo vegetarianismo é o tipo de pessoa mais intelectual, geralmente artistas, profissionais que se destacam em várias áreas. Eu percebo bem que eles têm uma consciência muito maior. Fora isto há outros grupos que já levam isto como uma realidade. Há alguns colegas meus, na medicina, que também têm trabalhos nesta área. Mas é muito diferente falar para uma pessoa que ganha um salário por mês – e que não são poucas, infelizmente é a realidade majoritária no nosso país – aí é muito difícil de atingir. Eu tenho esta sorte de conseguir atingir muita gente neste nível, por exemplo, ensinando a fazer a farofa multimistura para a alimentação ficar mais completa. Ensino a fritar a casca de batata, usar a casca de banana, trabalho já há muito tempo com isso. Porque muita gente acha que só a carne alimenta, eles têm esta educação falha. Eu consigo atingir também este público, mas é muito difícil encontrar quem se proponha a trabalhar assim. Eu percebo que o vegetarianismo é uma coisa mais elitizada, sim: financeira e culturalmente. O vegetariano é a pessoa que teve uma cultura mais elevada e que tem dinheiro. Mas com o meu trabalho como mãe-de-santo eu consigo atingir outras classes mais sofridas, de gente que vive com um salário, paga o aluguel e ainda tem três ou quatro filhos. Esta é uma área de atuação maior. Também tenho uma entidade filantrópica, o Grupo Ilê Iya Tundê, que fica em Itanhaém e já tem 22 anos, que me permite ir ensinando. Lá também ensinamos terapias, danças, capoeira e culturas de origem afro, além de cursos profissionais. Tem muitos outros grupos de várias crenças que inclusive utilizam este espaço para fazer entrega de mantimentos e outras atividades para a comunidade.

ANDA – O que pretende o candomblé vegetariano?

Iya Senzaruban – Eu sou uma mãe-de-santo e não estou aqui para questionar a situação de ninguém. Nasci numa situação tradicionalíssima e não posso negar de onde eu vim. Para algumas pessoas isso é o que serve. Para mim não serve mais. A minha função, assim como para quem se sente nesta situação, é encontrar uma nova forma de louvar os orixás sem ofender os outros seres vivos. Eu acho que é uma demonstração de boa vontade para com Deus.

Fonte: http://www.anda.jor.br/2009/11/15/candomble-vegetariano/comment-page-3/#comment-42990

Meus cumprimentos e meus respeitos a Iya Senzaruban, por sua coragem e por sua grande evolução espiritual. Tinha de ser filha de Oya!! hehehe...